NOTÍCIAS

“Fagoterapia avança no Brasil” e CEPID B3 é referência em pesquisa nacional

Diante do avanço global da resistência bacteriana aos antibióticos, o Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (CEPID B3) se consolida como uma das principais referências nacionais nos estudos sobre fagoterapia. É o que aponta uma reportagem publicada na última terça-feira (4) pela revista Pesquisa FAPESP, que destaca o centro entre os protagonistas na construção das bases científicas para o futuro uso clínico de bacteriófagos no Brasil.

Segundo o Relatório global de vigilância da resistência aos antibióticos 2025, lançado em outubro, uma em cada seis infecções bacterianas no mundo já apresenta resistência aos tratamentos disponíveis. No Brasil, dados do Ministério da Saúde indicam mais de 34 mil mortes anuais ligadas diretamente à resistência aos antimicrobianos (RAM). Nesse contexto, estratégias alternativas, como a fagoterapia – o uso de vírus específicos, chamados bacteriófagos, ou fagos, para combater bactérias causadoras de doenças – prometem reduzir desfechos negativos na saúde.

Atualmente, o uso de fagos terapêuticos no país é permitido apenas de forma compassiva, ou seja, quando outras opções de tratamento falharam e há risco iminente de morte. Mesmo diante de um cenário regulatório restrito e ainda em desenvolvimento, grupos brasileiros, como o CEPID B3, avançam rapidamente na pesquisa. A equipe reúne mais de 160 pesquisadores de diferentes áreas, distribuídos em 22 laboratórios e vinculados a instituições que ocupam posições de liderança no cenário nacional de pesquisa: USP, Unicamp, Unesp, Unifesp e IAC.

Além de investigar a biologia dos bacteriófagos e suas interações com bactérias e hospedeiros, o CEPID B3 vem avançando na transposição desse conhecimento para a prática clínica. A fagoterapia, já utilizada em países como Bélgica e Portugal, é foco de uma parceria científica estabelecida há cerca de cinco anos com o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP (HC-FMUSP). A colaboração garante acesso a isolados clínicos de bactérias multirresistentes reais e dá suporte ao desenvolvimento de um protocolo de uso clínico atualmente em elaboração. O objetivo é ampliar a capacidade de resposta a infecções de difícil tratamento, com maior agilidade e precisão.

Em meio ao avanço silencioso, porém alarmante, da resistência bacteriana, o reconhecimento da Pesquisa FAPESP projeta o CEPID B3 como um polo central de um esforço científico voltado à transformação do conhecimento básico em resposta clínica. Embora o Brasil tenha figurado entre os países pioneiros na fagoterapia, a abordagem permaneceu por décadas à margem da prática médica e, ao retomar e atualizar esse campo com pesquisa de ponta, o centro contribui para recolocar a ciência brasileira na linha de frente de um dos desafios mais complexos e urgentes da saúde pública contemporânea.