Na última terça-feira (01), o Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP), sede do CEPID B3, foi palco para uma palestra sobre os aspectos ecológicos da resistência bacteriana e o uso de antimicrobianos. A apresentação foi conduzida pelo Professor Doutor Rodrigo Cayô da Silva, do Campus Diadema da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), que coordena a Rede Nacional de Vigilância de Resistência Antimicrobiana GUARANI (Grupo Brasileiro de Saúde Única), a Rede Brasileira de Monitoramento de Ecossistemas Microbianos em Manguezais e Restingas (ARTEMIS), é diretor do Laboratório de Resistência Antimicrobiana Ambiental (LEARN) e integrante do CEPID ARIES. Durante a palestra, o Professor abordou, entre outros pontos, o futuro do tratamento das infecções bacterianas e o impacto do meio ambiente na aquisição e manutenção de genes de resistência aos antimicrobianos.
Entender a resistência bacteriana é um desafio global de saúde pública no combate às infecções causadas por esses microrganismos. O fenômeno, que já foi apontado como uma das ameaças à raça humana, ocorre quando, por meio de diferentes mecanismos e sob pressão seletiva, bactérias mais adaptadas conseguem sobreviver e se multiplicar na vigência da terapia com antibióticos, agravando o quadro clínico do paciente infectado. Nesse contexto, o pesquisador destacou a importância de investigar o arsenal adaptativo das bactérias multirresistentes – aquelas que apresentam resistência a vários tipos de antibióticos.
Cayô explicou que uma das formas de combater essa resistência é buscar novas formas terapêuticas. No entanto, isso representa um desafio. “O problema é que esses microrganismos são tão adaptados que, mesmo com a utilização de novos antimicrobianos, desenvolvem rapidamente resistência frente a tais compostos, seja por mutação ou por aquisição de genes provenientes de outras bactérias resistentes, e isso permite que eles se mantenham viáveis”, ressaltou.
Segundo Cayô, os genes responsáveis pela resistência surgiram ao longo de milhões de anos, como resultado das interações ecológicas entre diferentes microrganismos no meio ambiente. Ele explicou que microrganismos que competem por recursos, como espaço ou fontes de nutrientes, podem liberar compostos capazes de inibir o crescimento de seus competidores. “No entanto, os mesmos microrganismos produtores de compostos com atividade antimicrobiana precisam ser imunes ao próprio ‘veneno’, o que permitiu que se tornassem, também, fontes de genes de resistência”, acrescentou o pesquisador.
Para Cayô, além das pressões ambientais e do uso de antimicrobianos, uma série de fatores econômicos, antropológicos e sociais também contribuem para o agravamento desse fenômeno, como a corrupção, a pobreza extrema e o clima. “Quando há desvio de verba da saúde, a infraestrutura hospitalar se torna deficitária impedindo, entre outras consequências, que os métodos efetivos de controle de surtos sejam implementados adequadamente. Vários trabalhos também mostram que melhorar o saneamento básico, o acesso à água potável e a discriminação do esgoto antes do seu tratamento teria impacto positivo nas taxas de resistência aos antimicrobianos”, afirmou. Outro ponto abordado na palestra foi a capacidade de aquisição de genes de resistência por meio de transferência entre bactérias. “Esses genes podem ser transmitidos, inclusive, entre espécies e gêneros bacterianos”, alertou Cayô.
Atualmente, a resistência bacteriana gera um custo estimado de até 1 bilhão de dólares anuais, com despesas relacionadas aos tratamentos, às internações e a outros custos associados. “Há cerca de 32 milhões de casos anuais de infecções hospitalares causadas por bactérias resistentes, dos quais as mortes diretas giram em torno de 1,27 milhões ao ano”, afirmou o pesquisador. As maneiras de lidar com esse cenário são temas de debate na comunidade científica e as discussões vêm impulsionando a busca por soluções inovadoras. “A melhor forma de combater a resistência seria o desenvolvimento de tratamentos não dependentes de antimicrobianos, mas isso, atualmente, é impossível”, disse Cayô, que está envolvido na criação de novas estratégias. “Mesmo após a metabolização e liberação pelo organismos, os antimicrobianos continuam fazendo pressão seletiva no meio ambiente”, explica. “Por isso, boa parte dos projetos que eu me dedico são para tentar predizer novos mecanismos de resistência antes mesmo que eles cheguem no ambiente hospitalar”, concluiu o palestrante.
CEPID The Aries Project
Sediado na UNIFESP, o Instituto de Resistência Antimicrobiana de São Paulo (ARIES) visa identificar, caracterizar e propor intervenções alinhadas com metas de desenvolvimento sustentável para mitigar o surgimento, a persistência e a disseminação de patógenos resistentes. Para cumprir essa missão, o CEPID ARIES reúne especialistas e desenvolve projetos em diferentes áreas do conhecimento, como Infectologia, Medicina, Biomedicina, Farmácia e Ciências Ambientais.
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