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Mestrando no CEPID B3 é premiado no principal congresso latino-americano sobre bacteriófagos

Guilherme Wenceslau, aluno de mestrado no Centro de Pesquisa em Biologia de Bactérias e Bacteriófagos (CEPID B3), sediado no Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ/USP), recebeu o prêmio de Melhor Pôster na Categoria de Pós-Graduação durante o congresso IV Jornadas Latinoamericanas de Bacteriófagos. A reunião foi realizada nos dias 12 e 13 de março em Montevidéu, no Uruguai, e é considerada a principal conferência regional dedicada ao estudo de bacteriófagos.

A participação do pesquisador no encontro foi marcada pela apresentação do estudo “Dual RNA-seq Reveals Distinct Infection Dynamics of Two Lytic Phages in Pseudomonas aeruginosa PA14”, desenvolvido ao longo dos dois últimos anos como seu projeto de mestrado. O projeto, iniciativa de Aline Maria da Silva (em memória) e Layla Farage Martins, investiga como dois tipos de vírus que infectam bactérias, os bacteriófagos, ou fagos, assumem o controle das células bacterianas durante a infecção. “A nossa principal motivação foi investigar, de forma mais profunda, como ocorre a interação entre fagos e bactérias durante o processo de infecção”, explica Wenceslau. “Para isso, utilizamos uma abordagem conhecida como dual RNA-seq, que permite analisar simultaneamente a expressão gênica do vírus e do hospedeiro”, destaca. O pesquisador ressalta que um dos diferenciais do método é a capacidade de revelar, com resolução temporal, a dinâmica molecular da infecção – desde as respostas iniciais da bactéria até os mecanismos de “sequestro” da célula hospedeira promovidos pelo fago.

Os resultados levados ao congresso mostram que os dois vírus analisados, chamados de ZC01 e ZC03, utilizam estratégias distintas durante a infecção: enquanto o primeiro reprograma rapidamente o metabolismo da bactéria poucos minutos após a infecção, o outro promove uma reorganização mais gradual da célula. Ainda assim, ambos conseguem afetar processos importantes para a sobrevivência bacteriana, como a obtenção de ferro e a comunicação entre indivíduos. “Embora o estudo tenha sido conduzido em condições controladas de laboratório, os resultados obtidos abrem caminho para investigações em sistemas experimentais mais complexos”, argumenta o pesquisador.

Entre mais de 50 pôsteres apresentados por pesquisadores de toda a América Latina, o trabalho foi destacado entre os melhores. “Essa premiação tem um significado enorme para mim”, diz Wenceslau. “Ela reforça que cada esforço e cada desafio valem a pena por um propósito maior”, complementa. O autor acrescenta que, após a premiação internacional, os planos incluem expandir a linha de pesquisa para uma perspectiva aplicada, especialmente no contexto do uso dos fagos como alternativa terapêutica aos antibióticos. “Pretendo seguir explorando esse tema em futuras etapas da minha formação acadêmica, possivelmente no doutorado, ampliando a investigação para modelos experimentais mais complexos e integrando abordagens de biologia molecular, microbiologia, engenharia de tecidos e bioinformática”, conclui o premiado.

IV Jornadas Latinoamericanas de Bacteriófagos

As Jornadas Latino-Americanas de Bacteriófagos são realizadas a cada dois anos, em diferentes países da região, com o objetivo de fomentar o intercâmbio científico, fortalecer colaborações e impulsionar a pesquisa sobre bacteriófagos no contexto latino-americano.

Em 2026, o evento ocorreu em Montevidéu, no Uruguai, nos dias 12 e 13 de março, reunindo mais de 100 participantes de diversos países, como Uruguai, Argentina, Chile, Colômbia, Equador e Peru. O Brasil foi representado por Germán Sgró, também pesquisador do CEPID B3. A programação incluiu ainda apresentações de start-ups e a participação de palestrantes internacionais, ampliando o diálogo entre academia e setor produtivo.

De acordo com Wenceslau, ficou evidente que a pesquisa em bacteriófagos na América Latina tem forte direcionamento para a resolução de problemas locais. “Uma empresa uruguaia, por exemplo, relatou o uso compassivo de fagos no tratamento de doenças graves, com sucesso em dois casos”, destaca.

Para o pesquisador, o congresso representou uma oportunidade estratégica para estabelecer conexões, criar parcerias e conhecer de perto as iniciativas desenvolvidas em países vizinhos. “Também foi importante perceber que a América Latina está bastante avançada na aplicação de bacteriófagos em áreas como agricultura, saúde animal e saúde humana. Isso abre caminho para futuras colaborações, inclusive com o CEPID B3”, conclui.